José Roberto Walker

Encontro com Escritores
José Roberto Walker

→ Outros Olhares | mediado por Ana Demarchi Barel

Encontro com Escritores: Outros Olhares | mediado por Ana Demarchi Barel

José Roberto Walker

Quarta-feira, 12 de agosto das 17h às 18h20

Gratuito ou Contribuição voluntária de qualquer valor

95 vagas por ordem de inscrição

Imagem: Arquivo pessoal

O cânone literário de um país é formado por obras consideradas exemplares tecnicamente, representando a produção de alta qualidade de seus escritores.

Grandes textos da literatura brasileira se eternizaram ao cantarem nosso patrimônio compartilhado: caminhos conhecidos de todos, nossos heróis, temas familiares. Grandes obras literárias também se eternizaram ao trazerem ao leitor personagens anônimos, cidades perdidas nos grotões de nosso vasto território, falares múltiplos, paisagens ignoradas, conflitos negados, dilemas universais e levando para as páginas de suas obras um desenho de Brasil muitas vezes surpreendente. Grandes livros revelaram outras representações do eu, e os caminhos dos que vão pelas margens da sociedade.

Nesse encontro com escritores, trazemos pedaços desse Brasil, outros Brasis, registrados por outros olhares, outras narrativas. Venham ver com seus olhares muitos e admiráveis Brasis.

Lembro dos cheiros. Lembro, sobretudo do cheiro da cidade. Ela tinha um perfume próprio, que misturava a fumaça que saía continuamente das chaminés das fábricas com o gás que escapava dos lampiões da iluminação pública. Esses odores do progresso confundiam se com os dos excrementos dos cavalos e burros que circulavam pelas ruas e com mil outros aromas espalhados pelo ar. Quem deixasse a cidade, ao voltar, imediatamente percebia aquele seu odor característico. Não se podia dizer se era bom ou ruim, apenas que estava lá e quem chegava logo o percebia. Havia também aromas mais específicos, que se sentiam o tempo todo, andando pela rua ou mesmo dentro de casa. Lembro do cheiro do café torrado na hora, que se podia sentir em qualquer lugar, das castanhas assadas vendidas nas ruas pelos italianos, do mofo que saía das aberturas dos porões e que se percebia quando se caminhava pela calçada. Do querosene das lamparinas que ainda se usavam, dos couros expostos nas lojas da 25 de Março, do bacalhau pendurado na porta de todas as vendas. Do cheiro forte de gás nas proximidades do Gasômetro, no caminho do Brás, que as crianças com bronquite e tosse comprida iam cheirar porque as mães acreditavam que fazia bem. Lembro do cheiro de farmácia, do carvão do ferro de passar roupa que invadia as casas no meio da tarde, do perfume das damas da noite nos jardins. Lembro das calçadas sempre cheias e da multidão que ia e vinha o tempo todo sem parar. Lembro das vozes. Das vozes dos amigos e das vozes das ruas. Da algaravia de línguas misturadas: italiano, espanhol, árabe, alemão, algumas facilmente identificáveis; outras, desconhecidas e indecifráveis. Na cidade daquele tempo naturalmente também se falava português, mas quase sempre com algum acento especial. Havia a fala carregada dos portugueses, e sempre se ouvia em todos os lugares a prosa cantada dos italianos, misturando um pouco da língua da nova terra e muito de sua língua natal. O mesmo acontecia com os espanhóis, que também eram muitos e rivalizavam com os italianos. Havia ainda a língua arrastada que falavam os poucos nativos, comendo erres e esses no final das palavras. No entanto, os paulistanos nascidos aqui pareciam uma minoria prestes a se extinguir; os demais habitantes eram quase todos estrangeiros e recém chegados — como eu, que sempre fui estrangeiro na cidade. Talvez por isso muitas vezes a tenha observado com um olhar de turista, como o de quem está de passagem. Mas me apaixonei por ela desde que a vi, ainda criança, e andei por suas ruas com meu pai.

Neve na manhã de São Paulo, José Roberto Walker

Encontro com Escritores

Encontro com Escritores tem como objetivo, além de estimular a leitura, proporcionar o contato com temas atuais através da literatura brasileira, que registra outros olhares e outras perspectivas narrativas sobre relações sociais no Brasil. O participante entrará em contato também com os processos de escrita e as obras desses autores de trajetórias tão distintas.

Os três primeiros encontros terão mediação da pesquisadora e professora Ana Beatriz Demarchi Barel e o último, da artista e pesquisadora Paloma Durante.

A programação é gratuita e acontecerá pela plataforma Zoom. Colabore para realizarmos mais atividades gratuitas, faça sua contribuição voluntária de qualquer valor!

Cada encontro terá aproximadamente uma hora e vinte minutos, em que 50 minutos serão para debate da mediadora com o autor e 15 minutos destinados a perguntas dos participantes.

São 95 vagas e as inscrições para o primeiro encontro estarão abertas a partir do dia 20/07.

José Roberto Walker

José Roberto Walker é publicitário, formado em História pela Universidade de São Paulo. Atualmente é diretor da TV Cultura. Dirigiu a Cia. Brasileira de Ópera, a Orquestra Filarmônica Vera Cruz e várias edições do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Realizou, na área de vídeo e televisão muitos documentários e gravações de espetáculos de música, ópera e dança. No rádio, criou inúmeros programas dedicados à música erudita e à música popular brasileira. Produziu diversos espetáculos de ópera e exposições em espaços públicos em São Paulo. É coautor dos livros Theatro São Pedro: Resistência e Preservação (2000), Café, Ferrovia e a Metrópole (2001), O Presépio Napolitano de São Paulo (2002) e Ferrovia, um Projeto para o Brasil (2005). Neve na Manhã de São Paulo recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura em 2017.
O seu último livro Neve na Manhã de São Paulo nasce a partir de sólida pesquisa em documentos que registraram uma época e a cultura num momento de explosão populacional da cidade de São Paulo. Romance histórico e realista que conta a arrebatadora história de amor entre Oswald de Andrade e a normalista Maria de Lourdes Pontes, Miss Cyclone como também era chamada, no pré-modernimo na São Paulo do início do século XX. O romance recria a atmosfera vibrante da cidade da época. Neve na manhã de São Paulo mostra também o quanto o modernismo paulista já fervilhava, culminando na Semana de 22.

Ana Beatriz Demarchi Barel

Ana Beatriz Demarchi Barel é doutora em Letras pela Université Paris III Sorbonne Nouvelle. Realizou Pós-Doutorado em História na Fundação Casa de Rui Barbosa, no IEB-USP e Residência em Pesquisa na Biblioteca Mindlin - USP. Leitora do Governo Francês na Université de Nantes e ATER das Universités d’Amiens e de Toulouse. Estudou História da Arte na Ecole du Musée du Louvre. Professora de Literaturas de Língua Portuguesa e Teoria Literária da Universidade Estadual de Goiás UEG. Membro do GRUPEBRAF – IEA – USP. Autora de Um Romantismo a Oeste: Modelo Francês, Identidade Nacional, organizadora da edição fac-símile da Revista Nitheroy e de Cultura e Poder entre o Império e a República (1822-1930). Desenvolve pesquisas na área de História Literária, Literaturas Brasileira e Comparada. Atualmente, estuda as relações entre relatos de viajantes franceses do século XIX e iconografia.

Inscrição

Relacionados