Fabiana Vanz Dias

Encontro com Escritores
Fabiana Vanz Dias

→ Outros Olhares – Mediado por Paloma Durante

Encontro com Escritores: Outros Olhares | mediado por Paloma Durante

Fabiana Vanz Dias

Quarta-feira, 9 de setembro das 17h às 18h20

Gratuito ou Contribuição voluntária de qualquer valor

95 vagas por ordem de inscrição

Imagem: acervo pessoal

O cânone literário de um país é formado por obras consideradas exemplares tecnicamente, representando a produção de alta qualidade de seus escritores.

Grandes textos da literatura brasileira se eternizaram ao cantarem nosso patrimônio compartilhado: caminhos conhecidos de todos, nossos heróis, temas familiares. Grandes obras literárias também se eternizaram ao trazerem ao leitor personagens anônimos, cidades perdidas nos grotões de nosso vasto território, falares múltiplos, paisagens ignoradas, conflitos negados, dilemas universais e levando para as páginas de suas obras um desenho de Brasil muitas vezes surpreendente. Grandes livros revelaram outras representações do eu, e os caminhos dos que vão pelas margens da sociedade.

Nesse encontro com escritores, trazemos pedaços desse Brasil, outros Brasis, registrados por outros olhares, outras narrativas. Venham ver com seus olhares muitos e admiráveis Brasis.

Sobre as palavras e as coisas, a lucidez e a loucura
Divisor de águas, todos temos um. Não se passa uma vida inteira sem a lembrança de que antes daquele acontecido tudo era diferente. Daí a gente fica tentando em vão ser o que foi um dia, o que fomos um dia. Sei que por vezes sou pretensiosa, mas não ouso crer que sou a única a ter vivido uma experiência-limite. Daquelas que te viram de ponta-cabeça e estilhaçam o indivíduo, que depois tem de recolher os caquinhos como num mosaico, tentando não ser muito abstrato, e figurar. O melhor seria poder fazer uma linda mandala dos cacos mais ou menos coloridos, mas por vezes não dá pé, e a gente faz simplesmente aquilo que pode. Eu fiz um texto.
Aqui estão os cacos, lado a lado, se fingindo de escrita literária. Por vezes coloridos, por vezes em escala de cinza; mas são cacos. Como os que o antigo morador de minha casa, viúvo e sozinho, assentou por todos os lados: sem simetria alguma; sem dúvida, trabalhando os restos de azulejos para esquecer e seguir vivendo. Esquecer o que não sei: não o conheci. Mas herdei sua casa e as marcas que ele ali deixou. Por herdar entenda comprar, o que não impede que algo tenha herdado desse senhor sobre quem só sei um pouco da história. Fragmentos. Sei que ele morreu no hospital, e que a família contraiu uma dívida, o que facilitou a compra da casa. Ela é linda e fica nos fundos do Hospital Presidente. Quando surtei achei que o golpe aconteceu porque mudei para ela. Isso deve ser a heterotopia de Foucault: eu, as eleições, o golpe, o hospital, o diabo e etc. Ordenados no fio da história, na história do impossível.
Comecei escrevendo para sarar as fissuras mentais, não sei ainda se físicas ou psicológicas (o que hoje para mim não tem muita diferença). Fiz artes, e essa é minha escrita. Escrita de alguém que entrou na faculdade de letras, mas se misturou tanto no bololô da vida acadêmica, que não conseguiu ficar. Letras Francês, porque quando tinha 16 anos me apaixonei pela língua de Molière. Só depois fiz artes, foi onde aprendi sobre o tempo das coisas, que não é meu. É preciso esperar a argila secar, isso leva o tempo que levar. Também é preciso esperar cinco anos para viver melhor, depois de uma grande crise pessoal. Essa é minha história, que dividi com amigos e familiares, e agora divido com quem quiser ler.
A escrita também tem seu tempo, para mim ela surgiu alguns anos depois do primeiro surto, como refúgio no meio da bagunça: linhas retas. No papel podem se justapor Raul Seixas, Prometeu, anjos cristãos, meus amigos, e o poeta que passou, como na loucura. Essa é minha enciclopédia chinesa, como em Borges. Essa é minha tábua de trabalho, que por quatro vezes ordenei um pouco como na afasia. Mas da qual volto a me servir melhor ou pior dependendo de meu estado psíquico. O primeiro texto foi escrito por último, já com certo distanciamento, em terceira pessoa. Nele relato o que imagino que seria um conto sobre minha experiência da loucura vista de fora. O segundo foi escrito primeiro, depois de uma crise, nele tentei pôr no papel, de forma mais ou menos racional, o que havia vivido nas – até então – duas crises pelas quais havia passado como forma de reconhecer meu próprio processo. Já o terceiro, comecei a escrevê-lo durante a última crise ou surto, graças aos conselhos de parentes e amigos, para segurar a loucura nos limites do papel, não deixando que meus sentimentos e sensações de terror e angústia extravasassem para o mundo e a vida que segue. Ou seja, uma saída para a aflição, e de forma a manter a crise circunscrita.
Um dia acordei e não sabia mais nada. Foi assim que começou, uma experiência que se repetiu algumas vezes, e que, como disse, se tornou um divisor de águas em minha história. Aos poucos fui percebendo que, apesar das experiências psicológicas serem todas muito singulares, muitos já haviam estado em um “lugar” parecido, e passado por algo semelhante. Lacan diz que na base somos todos paranoicos, ou psicóticos, faz parte da experiência humana. No entanto, viver um surto é sempre desestabilizador, é deparar-se com o outro dentro, ou colado a si. Fernando Pessoa soube ser outro, Rimbaud, sabia-se outro. Mas na experiência psicótica o controle escapa, e este “outro” é pura linguagem na qual o sujeito encontra-se rendido a seu próprio mecanismo. A escrita também é outra, não é vida que segue nem deixa de ser vida: é apenas outra. Sei que muita coisa não é passível de representação por meio da palavra, como disse Pessoa, “este pouco não está nos livros”. No entanto, acredito na força da escrita como forma de simbolizar acontecimentos, e também nas narrativas, como forma de dar lugar à falta da linguagem cotidiana em relação aos episódios subjetivos experimentados.
https://www.editorapatua.com.br/produto/113676/sobre-a-coragem-do-medo-e-outras-loucuras-sas-de-fabiana-vanz-dias

SOBRE A CORAGEM DO MEDO E OUTRAS LOUCURAS SÃS, Fabiana Vanz Dias

Encontro com Escritores

Encontro com Escritores tem como objetivo, além de estimular a leitura, proporcionar o contato com temas atuais através da literatura brasileira, que registra outros olhares e outras perspectivas narrativas sobre relações sociais no Brasil. O participante entrará em contato também com os processos de escrita e as obras desses autores de trajetórias tão distintas.

Os três primeiros encontros terão mediação da pesquisadora e professora Ana Beatriz Demarchi Barel e o último, da artista e pesquisadora Paloma Durante.

A programação é gratuita e acontecerá pela plataforma Zoom. Colabore para realizarmos mais atividades gratuitas, faça sua contribuição voluntária de qualquer valor!

Cada encontro terá aproximadamente uma hora e vinte minutos, em que 50 minutos serão para debate da mediadora com o autor e 15 minutos destinados a perguntas dos participantes.

Fabiana Vanz Dias

Fabiana Vanz Dias é formada em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes, tendo concluído o curso em 2013, com o trabalho de conclusão de curso em Linguagem da Performance. É professora de francês e educadora, tendo trabalhado em museus e exposições culturais em São Paulo, onde mora, no bairro do Tucuruvi, Zona Norte. Faz terapia lacaniana há cinco anos. Ingressou na faculdade de letras francês na PUC - São Paulo no início dos anos 2000, não tendo concluído o curso.

Paloma Durante

Paloma Durante atua como artista-educadora, bailarina e pesquisadora. Trabalha buscando intersecções entre as linguagens do corpo e o texto, vazando estas relações como maneiras de habitar o espaço (e todas suas espécies de). Participou de exposições, mostras e rodas de conversa em espaços como o Museu de Arte de Ribeirão Preto Pedro Manuel-Gismondi - MARP, o Tomie Ohtake e o espaço BREU no bairro Barra Funda, São Paulo. Foi artista residente do Arteles Creative Center, Haamenkyro, Finlândia e, junto ao seu Grupo de Estudos Práticos em Linguagem Experimental - GEPLE, recebeu o fomento do ProAC editais para publicações independentes, com o projeto Gramatologia.

Inscrição

Relacionados