#CasaMuseuConversas – Entrevista com Lucas Bonetti

*Imagem: Lucas Bonetti. Crédito: Clakeithy (acervo Casa Museu Ema Klabin)

Confira a entrevista com o músico e compositor Lucas Bonetti

Essa edição do #CasaMuseuConversas convida o pós-doutorando pela USP, instrumentista, arranjador e compositor, Lucas Bonetti. Lucas atuou como guitarrista, saxofonista e arranjador de orquestras como a Orquestra Jovem Tom Jobim e Big Band da Santa Marcelina. Atuou como professor em ensino especializado de música e na educação do sistema público e privado de educação, além de lecionar para o curso de pós-graduação em Trilha Sonora da Anhembi Morumbi.

Autor do livro Entrevistas com Compositores Brasileiros de Música para Audiovisual e Dramaturgia e do site Trilhas Musicais de Moacir Santos, financiado pelo RUMOS Itaú Cultural e pela FAPESP, Lucas nos conta um pouco de sua trajetória musical, em especial à sua pesquisa e relação com a obra do compositor Moacir Santos que resultou em extensa pesquisa sobre o trabalho do compositor, maestro, arranjador e multi-instrumentista brasileiro responsável por uma vasta obra musical para a televisão nacional e internacional.

Lucas, poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória musical e como você se aproximou da obra de Moacir Santos?

Meu primeiro contato com a música do Moacir Santos foi durante uma aula de percussão com o Edu Ribeiro, no meu primeiro ano de faculdade. Lembro que foi uma experiência realmente arrebatadora e transformadora. Fiquei muito intrigado com aquela sonoridade e, poucas semanas depois, eu já tinha adquirido todos os álbuns que pude encontrar, além dos 3 songbooks produzidos pelo Mario Adnet e Zé Nogueira. Tive uma trajetória bastante acadêmica com a música, e felizmente pude desenvolver minhas pesquisas investigando essa vasta obra: desde a monografia da graduação (FASM), passando pela dissertação de mestrado (UNICAMP), a tese de doutorado (UNICAMP) até uma, ainda em andamento, pesquisa de Pós-Doutorado (USP).

Poderia dar um panorama sobre o trabalho “Trilhas Musicais de Moacir Santos”, os resultados e potencialidades a partir desta pesquisa?

Tudo começou em 2012, quando iniciei um projeto de pesquisa de mestrado. O foco na época era resgatar e analisar a produção de trilhas musicais do Moacir no início dos anos 1960 para o cinema brasileiro. Entre 2014 e 2018 dei continuidade à essa pesquisa em um projeto de doutorado, quando pude me dedicar ao período norte-americano de suas produções, entre o final da década de 1960 e meados da década de 1980. Também tive o privilégio de fazer uma pesquisa de campo na Califórnia., quando passei um semestre como pesquisador visitante na UCLA, realizando entrevistas e visitas a acervos. Agradeço imensamente à família Santos, que me recebeu muito bem, à Andrea Ernest Dias, pesquisadora que abriu os caminhos para os que vieram depois e à FAPESP, pelo financiamento.

Infelizmente, pesquisas acadêmicas costumam ter um grande distanciamento da comunidade fora das universidades. Um jeito de mitigar essa questão foi propiciado por um projeto financiado pelo Rumos Itaú Cultural que culminou na publicação do site www.trilhasmoacirsantos.com.br. Outro desdobramento importante foi a criação do Ágar-Ágar TRIO, formado por mim (guitarra), Jussan Cluxnei (clarinete/clarone) e Lucas Brogiolo (percussão). Esse grupo nasceu com a ideia de adaptar as trilhas musicais de Moacir Santos para uma nova roupagem e em 2020 lançamos nosso primeiro álbum, MOA, focado no período brasileiro. Atualmente estamos produzindo o segundo, que se dedicará ao período norte-americano.

Sobre Moacir Santos, quais aspectos da vida e obra do compositor você considera fundamentais para entendermos sua relação com a cultura brasileira e seu contexto?

O primeiro disco autoral de Moacir, Coisas, foi lançado quando ele tinha 39 anos de idade, um compositor já muito maduro. Sua trajetória foi marcada por diversos trabalhos nas rádios e no audiovisual, que certamente ajudaram a consolidar seu métier composicional. Outra questão importante é o fato dele ter sido o professor de inúmeros personagens centrais da Música Popular Brasileira, como Nara Leão, Baden Powell, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Dori Caymmi, Paulo Moura etc. Inclusive, alguns dos Afro-Sambas, de Baden e Vinícius de Moraes, tiveram sua gênese a partir de ideias passadas nas aulas de Moacir. Com certeza, sua marca está entremeada em mais coisas do que podemos imaginar.

O primeiro disco autoral de Moacir, Coisas, foi lançado quando ele tinha 39 anos de idade, um compositor já muito maduro. Sua trajetória foi marcada por diversos trabalhos nas rádios e no audiovisual, que certamente ajudaram a consolidar seu métier composicional.

Lucas Bonetti

Durante o processo de transcrição das obras fílmicas de Moacir Santos, quais os principais desafios encontrados para a consolidação do material? Como foi lidar com a relação entre música e filme?

Sem dúvidas, o maior desafio foi encontrar cópias dos filmes, pois eles não foram lançados digitalmente. Inclusive, alguns se perderam até mesmo em seus formatos analógicos, como é o caso de Love in the Pacific. A única coisa que restou foi um rolo contendo o trailer do filme, que pude assistir no Academy Archive, em Hollywood. Felizmente, um LP com a trilha musical de Love in the Pacific foi lançado por um selo italiano chamado Cam Records, e foi um trabalho de garimpo encontrar e comprar uma cópia. Após assistir e ouvir a produção de Moacir de música para o audiovisual, foi incrível perceber a refinada articulação dramático-narrativa que ele conseguiu criar, com leitmotivs e paletas sonoras pensadas para cada produção.

Quais obras você indicaria para os leitores desta entrevista tomarem contato com as composições de Moacir Santos?

O álbum Coisas é essencial, uma obra-prima da música popular brasileira, para ouvir centenas de vezes e descobrir algo novo em cada uma delas. De outro lado, uma ótima porta de entrada no universo moacirsantosiano é o Ouro Negro, pois o disco duplo dá um consistente e amplo panorama das diferentes sonoridades consolidadas em sua música.
Por fim, convido a todos a acessarem o site do projeto TMMS, de modo a conhecer um Moacir Santos diferente, que explora todas as potencialidades de articulação entre música e imagens.

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