Adoniran Barbosa: percursos de um sambista paulistano

Adoniran Barbosa: percursos de um sambista paulistano

→ Saberes Sonoros

*Imagem: Conjunto João Rubinato. Foto: Merylin Esposi

Em agosto de 2019 o Conjunto João Rubinato apresentou na Casa Museu Ema Klabin o espetáculo do disco-livro Adoniran em Partitura – 12 canções inéditas, trabalho intenso e de muita pesquisa sobre um dos expoentes do samba paulista, Adoniran Barbosa (João Rubinato). Publicado em 2017, o minucioso trabalho resgatou um conjunto de doze obras do compositor realizadas entre 1930 e 1970 com a publicação das partituras e criação dos arranjos pelo grupo para a gravação do CD.

 

O espetáculo foi realizado em forma de programa de rádio à moda antiga com as obras registradas no livro, além de cenas cômicas escritas especialmente para o radioator; também contou com a participação do sobrinho do saudoso mestre, Sergio Rubinato e do compositor e intérprete recifense, Toinho Melodia (Antônio Freire de Carvalho Filho).

"Teu Orgulho Acabou" de Adoniran Barbosa

O espetáculo contou com a participação de Toinho Melodia na interpretação da obra Socorro, uma das composições inéditas de Adoniran composta em 1935 em parceria com Pedrinho Romano. Toinho Melodia, antes de ser Toinho, era Toniquinho Batuqueiro quando veio com a família pernambucana à capital paulista aos onze anos, ficando conhecido aqui como Toinho Melodia. Sua experiência com escolas de samba na paulicéia, rodas de samba, programas televisivos como o “Samba na Gamboa” e “Milagre de Santa Luzia” deram um toque especial à interpretação da música e para a composição do trabalho do Conjunto João Rubinato.

"Socorro" de Adoniran Barbosa e Pedrinho Romano

O universo múltiplo da obra de Adoniran, interpretada por diversos musicistas ao longo da história, como Elis Regina, Ney Matogrosso, Fernanda Takai, Simoninha, Conjunto João Rubinato entre muitos outros, revela a potencia da poética musical de Adoniran Barbosa, repleta de particularidades linguísticas que construíram a imagem e a identidade do compositor caracterizando-o como um grande cronista da cidade de São Paulo. 

Na obra Minha Vida se Consome, composição inédita de Adoniran Barbosa, Pedrinho Romano e Verídico, de 1935, o compositor revela dimensões da desigualdade que a cidade de São Paulo já enfrentava na época. A simplicidade e as dificuldades em se tocar a vida sempre foram temas de grandes sambas, mas também neles sempre esteve presente a persistência do povo e de sua cultura. Na obra citada temos a fome como mote para a construção da poética musical:

A noite vai chegando

Minha vida se consome

Tanta gente se alimentando

E só eu passando fome

Dá rugido, dá estalo

Meu estômago faminto

Vou ver se posso tapeá-lo

Apertando mais o cinto.

"Minha Vida se Consome" Adoniran Barbosa, Pedrinho Romano e Verídico

É curioso observar que a representatividade do compositor foi em certa medida, acidental, pois João Rubinato, o Adoniran Barbosa, queria ser artista e buscou, sem sucesso, interpretar grandes personagens no teatro. A vida profissional de Adoniran se desenvolveu a partir das interpretações de outros artistas, como foi com a obra Dona Boa (Adoniran Barbosa e J. Aymberê) interpretada pela primeira vez na voz de Raul Torres.

Aos poucos Adoniran se entregou ao papel de ator radiofônico, lá por volta dos anos 30 e 40 do século passado, se dedicando também à criação de diversos personagens populares e à interpretação que deles fez nos estúdios da Rádio Record em programas escritos por Osvaldo Moles. É a partir desses programas que o grande sambista encontrou o caminho para sua carreira: o mergulho na linguagem, nas construções linguísticas, pontuadas pela escolha exata do ritmo da fala paulistana foram fundamentais para a construção desse grande artista brasileiro.

No vídeo abaixo, além de “É cedo”, uma das primeiras composições de Adoniran, o Conjunto João Rubinato apresenta um dos quadros de radionovela que fez a carreira do compositor. Giuseppe Perna Fina, o taxista que atropela o vernáculo!

"É Cedo" de Adoniran Barbosa

Como dito, Osvaldo Moles, ativista e articulador dos meios de comunicação à época, teve grande importância para a carreira de João Rubinato, pois Moles ganhou expressividade com seu trabalho após atuar junto ao Diário Nacional com equipe liderada por Sérgio Milliet e grupo de redação composta por figuras como Mário de Andrade, Lasar Segall e Manuel Bandeira. Após o fechamento do jornal no início dos anos 30, por se opor ao Partido Republicano Paulista, Osvaldo foi convidado por Chateaubriand para participar da criação da Rádio Tupi de São Paulo e, em 1940, aceita o convite de Gabus Mendes para atuar na Rádio Record, onde teve contato com Adoniran Barbosa.

Como Osvaldo acrescentou diversos programas humorísticos caracterizados por retratar a vida da população pobre da cidade de São Paulo com humor e sarcasmo e, já que a rádio estava presente nas casas de grande parte da população, observou em Adoniran um grande potencial criativo, apadrinhando assim o artista e criando o seu primeiro personagem, “Zé Cunversa, Pretinho nascido na Barra Funda, malandro como o gato, ‘já nascido com o bigode’” (Álvaro Bufarah Junior).

Neste vídeo, o Conjunto João Rubinato apresenta um trecho do texto de Osvaldo Moles (1956), Histórias de Vagabundos, apresentado no programa Bangalôs e Malocas, onde o radioator, Adoniran Barbosa, interpretou o personagem Gariboba numa luta contra o trabalho. Em seguida, o grupo interpretou as obras Vem Garota, Teu Sorriso e Marcha do Camelo.

Trecho do texto de Osvaldo Moles de 1956, Histórias de Vagabundos. Na sequência, o Conjunto João Rubinato interpreta de Adoniran Barbosa, "Vem Garota" / "Teu Sorriso" / "Marcha do Camelo"

Suas obras inéditas resgatadas pelo Conjunto João Rubinato revelam que as parcerias de Adoniran foram ponto forte para o desenvolvimento de sua carreira como compositor, cantor e radioator, com isso, é importante ressaltar outros exemplos, como o caso de sua primeira música, assinada em conjunto com o maestro e compositor J. Aimberê no início dos anos 30. Dona Boa foi premiada em primeiro lugar no concurso carnavalesco da prefeitura de São Paulo em 1934. Outro exemplo bastante expressivo é Bom Dia Tristeza, composta em 1957 com Vinicius de Moraes – samba-canção “gravado primeiramente por Aracy de Almeida e mais tarde por Maysa” (Enciclopédia Itaú Cultural). 

No caso da obra interpretada pelo Conjunto João Rubinato, Mamaô (1937), Adoniran compôs a música a partir do texto de seu amigo Raymundo Chaves, poeta muito próximo do compositor e parceiro em muitas composições, como Santo Amaro é Paulistano, Vila Buarque dos Meus Sonhos e Amanhecer no Braz. A obra, Mamaô, designada como samba-jongo “não se refere a um ritmo, e sim ao tema da canção: trata-se de um samba cuja letra faz referência ao universo das religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé. E não como um canto ritual, mas como uma estilização característica da nascente indústria fonográfica nacional. ” (Conjunto João Rubinato)

"Mamaô" Música de Adoniran Barbosa e letra de Raymundo Chaves.

Outro exemplo bastante singular das parcerias de Adoniran Barbosa diz respeito à obra Chá de Cadeira que foi composta em parceria com Jucata (José Diaféria). Segundo o Conjunto João Rubinato, além da composição revelar o espírito coletivo do musicista,  Chá de Cadeira “já nos apresenta um Adoniran mais familiar – o bom e velho cronista social, que sempre encontra um jeito de utilizar expressões populares em suas letras, como é o caso de ‘tomando chá de cadeira’, ‘só tá dando paletó’ e ‘duana’, gíria que significa roupa bonita de homem”.

"Chá de Cadeira" Obra de Adoniran Barbosa e Jucata (José Diaféria)

E é sobre essas uniões, parcerias e composições que a pesquisa do Conjunto João Rubinato revela memórias, afetos e curiosidades sensíveis às vidas daqueles que conviveram com Adoniran. Em sua busca por composições inéditas, por exemplo, o grupo encontrou a obra Duas Horas da Madrugada, registrada em 1970 e composta em parceria com o maestro Hervé Cordovil. O Conjunto decidiu procurar herdeiros do maestro para colherem um dos materiais mais preciosos do conhecimento social: a memória. Chegaram então à filha do maestro, Regina Cordovil, e ao perguntarem se Regina se lembrava da música, tiveram a seguinte resposta: “Lembro sim! Essa música tem história!…(risos)”.

Segundo o Conjunto, em um dos momentos mais emocionantes de sua história, “Regina contou que quando seu pai estava doente, já no finalzinho da década de 1970, a família teve que fazer um revezamento: das seis da manhã às seis da tarde, Hervé ficava sob os cuidados de sua esposa, Darcy; das seis da tarde à meia noite com o filho Junior; da meia-noite às seis da manhã, era a vez de Regina. Ao contrário do que poderia parecer, a madrugada era o período em que o maestro se sentia mais cheio de vida – exatamente como em toda a sua história de música e boêmia”. Em uma dessas noites, Hervé levantou-se da cama e disse à filha: “Vamos para o seu quarto. Pegue seu violão, quero te ensinar uma música”. E noite adentro, no quarto de Regina, cantaram o samba Duas horas da madrugada” (Conjunto João Rubinato).

"Duas Horas da Madrugada" Composição de Adoniran Barbosa e Hervé Cordovil

Escute também de Adoniran Barbosa e Hervé Cordovil, Olhando pra Lua, composta em 1970.

"Olhando pra Lua" de Adoniran Barbosa e Hervé Cordovil

O Valinhense nascido em 1910 e descendente de italianos, João Rubinato, conquistou gerações de pessoas, musicistas e sambistas que ainda hoje escutam e apreciam sua obra. Por diversos motivos a obra de Adoniram é cativante, o maior deles é, sem sombra de dúvidas, o humor do compositor. Um clássico é Samba do Arnesto, que surge com bom humor desde o início quando, com um gesto amigo, apelida Ernesto Paulelli de Arnesto. Alguns anos depois do lançamento da música “Arnesto” pergunta para o Adoniran: “Que história era aquela de dar um bolo nele” e teve como resposta, “Arnesto, se não tem bolo não tem samba! 

"Samba do Arnesto" de Adoniran Barbosa

Toda a complexidade presente nas letras de Adoniran revelam uma personalidade fluida capaz de prosodiar com muita habilidade o cotidiano, as memórias e histórias, utilizando-se do coloquial com muita tranquilidade, enquanto o censo na ditadura civil-militar, em 1973, vetava sua obra Tiro ao Álvaro por conta de sua informalidade com a escrita,. A censura, em seu juízo, considerou que “a falta de gosto impede a liberação da letra”. O documento pode ser conferido aqui https://documentosrevelados.com.br/wp-content/uploads/2013/03/censura-adoniram.jpg.

"Tiro ao Álvaro" de Adoniran Barbosa

A inventividade do compositor e seu carisma legou  para a música popular brasileira um amplo conjunto de obras de extrema relevância para a memória social do samba e de São Paulo, lugar em que Adoniran Barbosa transitou por diversas temáticas, contando histórias e alegrando milhares de pessoas em sua atuação. Para finalizar, não podemos deixar de ouvir outros clássicos do compositor, Um Samba no Bexiga, Comê e Coçá, é só Começá e Trem das Onze. Viva o mestre! Viva Adoniran!

"Um Samba no Bexiga" de Adoniran Barbosa

"Comê e Coçá, é só Começá" de Adoniran Barbosa e Geraldo Blota (1969)

"Trem das Onze" de Adoniran Barbosa

Para o espetáculo em nosso auditório, o Conjunto João Rubinato se apresentou com a seguinte formação:

Cadu Barros – violão de 7 cordas

Cadu Ribeiro – percussão e voz

Gregory Andreas – cavaquinho e voz

Ivan Banho – percussão

Laura Santos – clarinete

Maiara Moraes – flauta

Soraia Ioti – voz

Verônica Borges – surdo e voz

Tomás Bastian – direção geral

Convidados especiais:

Sergio Rubinato – sobrinho de Adoniran

Toinho Melodia – sambista da velha guarda

+ do blog:

#CasaMuseuConversas
Entrevista com Raphael Escobar

Entrevista com John McNaughton

#CasaMuseuConversas
Entrevista com Fernando Alves

André Sanches

Começou seus estudos musicais como contrabaixista em 2006. Teve a oportunidade de estudar nos maiores conservatórios de música popular do estado de São Paulo, como O CLAM (Centro Livre de Aprendizagem musical – Zimbo Trio), A EMESP (Antiga ULM), o Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos em Tatuí e a Faculdade de Artes Alcântara Machado. Atualmente cursa o bacharelado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo. Também é interessado e pesquisa as manifestações artísticas tradicionais, sobretudo as que despertaram o interesse dos folcloristas na primeira metade do século XX.

Thiago Guarnieri

Thiago Guarnieri: Graduado em história pelo Centro Universitário FIEO, desenvolveu pesquisas sobre o movimento operário em Osasco e desenvolvimento de materiais didáticos para o ensino fundamental com enfoque em arte-educação. Pós-graduado em Gestão Cultural pelo SENAC com enfoque em políticas públicas e mapeamento cultural; atualmente cursa pedagogia pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo com pesquisa voltada para a prática de musicalização infantil.