Frascos para perfume em formato de camponeses - Jacob Petit, 1840

O que nos contam os objetos…

*Imagem: Frascos de perfume em forma de camponeses – Jacob Petit, 1840. Fotografia de Isabella Matheus. (M-0331 e M-0332)

Desde que comecei a trabalhar em uma casa-museu, me pego analisando objetos, suas linhas, seus materiais, desde o meu sofá, a xícara que bebo meu café, minha escrivaninha, minha cama, até objetos que não tenho mais contato, que apenas tenho uma vaga lembrança, como uma garrafa de perfume dos anos 1980 que minha tia avó Áurea tinha, até uma mesinha de telefone com cadeira acoplada, possivelmente dos anos 1970 que minha tia avó Francisca possuía em sua casa. 

Nessas observações compreendo o quanto esses itens podem ser vistos como documentos do modo em que vivemos. Não vejo a mesinha de telefone desde a década de 90, de lá para cá tivemos telefone de disco, telefone com teclado, telefone sem fio, por fim, a telefonia móvel veio a sublimar a obrigatoriedade de um telefone fixo nas residências. A mesinha que na década de 1970 era item de distinção de uma casa no interior de Pernambuco, foi cada vez mais sendo subutilizada, não tenho ideia de seu destino, mas acho provável que no processo de mudança ela tenha deixado de figurar entre os móveis da sala principal.

O frasco de perfume de Áurea era guardado como um bibelô, não havia mais perfume dentro, era um frasco de vidro com tampa de plástico, a tampa tinha o formato do tronco de uma jovem mulher de chapéu e o frasco de vidro era seu vestido. Faço um comparativo com os frascos de perfume de porcelana, existentes na coleção de Ema Klabin (img.1), em formato de um casal de camponeses, estes frascos possivelmente não serviram mais as suas funções originais desde talvez o século XIX, porém, como no caso da minha tia avó, eram mantidos como enfeites em uma coleção. 

Frascos para perfume em formato de camponeses - Jacob Petit, 1840

img.1 Frascos de perfume em forma de camponeses – Jacob Petit, 1840. Fotografia de Isabella Matheus. (M-0331 e M-0332)

Buscando estudar as artes decorativas descobri que as nossas escolhas, de como mobiliamos nossa casa e até mesmo o nosso gosto estético, são permeadas de permanências. O frasco de perfumes da Coleção de porcelanas de Ema Klabin  talvez para o meu gosto seja um item kitsch, porém, ele próprio é resultado da influência dos trabalhos de artistas como François Boucher ou Jean-François de Troy que em suas telas buscaram trazer temas bucólicos e foram comissionados para emprestar suas obras a produção de itens decorativos de porcelana e até mesmo tapeçarias. O material muda, mas a inspiração permanece no frasco de perfume dos anos 80.

Mas não foram só estéticas as mudanças que foram trazidas pelas manufaturas de porcelana, primeiro chinesas e depois européias, o nossos hábitos de alimentação foram moldando os recipientes a serem criados, desde os pratos e sopeiras, ou até mesmo as xícaras e taças de consomê de porcelana (img. 2 e 3). O hábito do consumo de bebidas quentes como o chá, chocolate quente e café, determinou muito do formato, desde a adição das alças para facilitar o manuseio destes itens quando quentes, a até mesmo o pires para apoiar a xícara na hora em que descansamos o braço, entre um gole e outro de chá. Novos hábitos trouxeram novas configurações das casas e algumas delas ainda perduram.

Serviço Rosenthal Eminence Cobalt - Rosenthal, 1962

img.2 – Serviço Rosenthal Eminence Cobalt – Rosenthal, 1962. Fotografia de Henrique Godinho.  (M-1394 a M-1398)

Jogo para chá - André François, 1928-1942

img.3 – Jogo para Chá – André François, 1928-1942. Fotografia de Isabella Matheus. (M-1519 A 1524)

Um ótimo exemplo desta permanência é o sofá, que costuma ser peça central em boa parte de nossas salas e vem de uma série de experimentos entre as manufaturas de têxteis e dos artesãos de mobiliário, que vão desde apenas cobrir os assentos de uma cadeira até a criação do estofado e a invenção de um item de mobiliário que tivesse estofamento no assento, no encosto e nos braços. O sofá nos permite ficar encostados de forma despretensiosa e relaxada. Os artesãos do séc. XVIII por fim acabaram inventando a própria noção de conforto que perdura até os nossos dias. (img.4)

Sofá “shalom” - Lottieri Lotteringhi (Terri) Della Stufa. Decorações Terri Ltda., Séc. XX. 1960.

img.4 – Sofá “Shalom” – Lottieri Lotteringhi (Terri) Della Stufa. Decorações Terri Ltda., 1960. Fotografia de Henrique Luz. (M-0869)

Em tempos em que precisamos praticar o isolamento social, e que não temos acesso a coleções de museus como a da Fundação Ema Klabin, pensei em compor esse texto, povoado de leituras e memórias emaranhadas, talvez, buscando um entendimento, claro sem ignorar o contexto específico da antiga casa Ema Klabin, de que a coleção de uma Casa-Museu possui ecos em nossas próprias casas e que cada uma de nossas casas pode carregar em si nosso próprio museu.

+ do blog:

O que é uma Casa-Museu?

Tecendo novas narrativas

Fragmentos
Retrospectiva Backdrop Grafite

Felipe Azevêdo

É educador da Fundação Ema Klabin desde 2013 e graduado em História pela Universidade de São Paulo. Fascinado por mobiliário, arquitetura e por observar a cidade (de preferência andando a pé ou de transporte público).