Palestra
O massacre dos libertos: Sobre raça e república no Brasil

O massacre dos libertos: Sobre raça e república no Brasil

Matheus Gato

Quarta-feira, 11 de novembro às 17h

Gratuito ou contribuição voluntária

Transmissão pelo YouTube. Link enviado aos inscritos com 30 minutos de antecedência.

Vagas ilimitadas

Imagem: El Tres de Mayo, bt Francisco de Goya, from Prado in Google Earth

Esta palestra versará sobre a conjuntura do fuzilamento de “libertos monarquistas” em 17 de novembro de 1889 em São Luís do Maranhão.

Fruto da pesquisa que deu origem ao livro de Matheus Gato, “O Massacre de Libertos: sobre raça e república no Brasil”. Este conflito resultou da tensão entre os republicanos que, no dia anterior anunciavam através do jornal O Globo, a derrocada do regime imperial. Um vultoso grupo de negros que ameaçavam destruir a sede do periódico e atacar seus dirigentes, segundo as fontes, viam na queda da princesa Isabel uma ameaça à liberdade conquistada em 13 de maio de 1888. “O evento consiste numa chave analítica para compreendermos processos de racialização da sociedade brasileira no pós-abolição”, diz Matheus. Neste sentido, vale a pena interrogar por que, na periferia econômica e política do país, a mudança na forma de governo foi capaz de catalisar imediatamente, através de protesto de negros, as contradições na reorganização da hierarquia social dada a derrocada do mundo dos senhores.

Daí a pouco ouviu-se o estrondo dos primeiros tiros.
(…). Os negros se imobilizaram, comprimidos na rua dos
Barbeiros, como se fossem retroceder. Uma parte deles
Chegou a refluir para o Largo do Carmo, num esboço
de correria pânica. Silêncio. E depois um grito que se
repetiu: – É polvora seca!

Logo a multidão volveu à boca da rua, mais impetuosa,
mais aguerrida, como incitada pelo fiasco da represália.
Por cima das cabeças só se viam os cacetes e as barras de
ferro. Na claridade dos lampiões reluziam as lâminas das
facas, das navalhas e dos punhais. E de vez em quando,
por cima do marulho da multidão enfurecida, o coro de
vozes se repetia: – Viva a princesa Isabel!

De novo estrondaram os tiros, e desta vez as cargas se
repetiam, cerradas, umas atrás das outras. Agora não eram
tiros a esmo para intimidar o povo, eram cargas de balas
sobre os negros, matandos uns, ferindo outros, e obrigando
a multidão retroceder, ladeira acima no sentido do Largo
do Carmo, ladeira abaixo no sentido da Praia Grande.
Era o salve-se quem puder no atropelo da debandada. E de
mistura da fulga dos pretos, que iam largando pelo
caminho as suas armas, começaram a soprar os ventos
gerais, sibilando, zinindo, assobiando, como a vaiar e a
perseguir os fugitivos, que se dispersaram pelas ruas.

Damião deu por si ao pé da ladeira da Palma, junto
a um negro ensanguentado. Com um lenço procura
conter-lhe a hemorragia: – Vai passar, vai passar – tornava
a dizer-lhe, tentando animá-lo, mas sentia que a vida do
outro se esvaía no sangue que não parava

Adiante, na mesma calçada, havia dois mortos. Dois outros
Pouco além, na calçada fronteira. Outros mais, no meio da
rua. E feridos por toda a parte, gemendo, gritando, pedindo
que os socorressem, alguns a se arrastarem nas pedras do
calçamento, com as forças que lhes restavam.

Trecho do livro Os Tambores de São Luiz – Josué Montello

Público-alvo

Historiadores, cientistas sociais, estudantes, professores, pesquisadores e público interessado em geral.

Matheus Gato

Matheus Gato é professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas - IFCH-UNICAMP. É pesquisador do Núcleo Afro do Centro de Brasileiro de Análise e Planejamento - CEBRAP e coordenador do Bitita – Núcleo de Estudos Carolina de Jesus. É doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo - 2015 e realizou pós-doutorado na mesma instituição- 2016-2019. Foi visiting fellow no Hutchins Center for African and African American Studies da Universidade de Harvard - 2017-2018. Seus principais temas de investigação são: racismo, classificações raciais, violência racial, intelectuais negros, literatura e pós-abolição. Autor do livro O Massacre dos Libertos: sobre raça e república no Brasil (1888-1889).

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