*Imagem: Apresentação de SANS, SOUCI., obra de Ana Dias Batista, no jardim da Casa Museu Ema Klabin. Foto: Ana Catarina Duarte / Arquivo Casa Museu Ema Klabin
Na arquitetura de sua casa, hoje museu, construída na década de 1950, Ema Klabin fez referências ao palácio rococó de Frederico o Grande, erguido em Potsdam na década de 1740, que ela havia visitado na juventude e cuja fachada ostenta a expressão que dá nome ao trabalho que propus para o edital Jardim Imaginário.
No palácio, sob a inscrição “SANS, SOUCI.”, há figuras humanas que encimam colunas e, braços erguidos, parecem sustentar o edifício. As cariátides e atlantes clássicos¹, como se sabe, faziam referência às mulheres de Cária, condenadas a carregar pesados fardos, e a Atlas, punido por Zeus com o eterno castigo de sustentar o firmamento. No palácio de Sanssouci, entretanto, as figuras esculpidas na fachada são sátiros e bacantes², libertinos cujo deslocamento para o topo de colunas esvazia o ornamento clássico do caráter pedagógico, admonitório. Oportunamente, a expressão francesa sans souci se traduz por “sem preocupações”. De fato, no rococó, o ornamento se autonomizou do drama que o lastreava no vocabulário barroco, degenerou-se em excessos e caprichos. Paralelamente, as relações sociais nas classes aristocráticas se converteram em encenações altamente elaboradas, anunciando os estertores do antigo regime.
Estátuas vivas imitam figuras de pedra que, por sua vez, imitam figuras humanas. Trata-se de uma atividade tautológica, circular. No meu trabalho, quatro artistas de estátuas vivas representam as cariátides e atlantes de Sanssouci. Eles se revezam nas seguintes atividades, cuja alternância se dá pelo acionamento, por um deles, de uma campainha de teatro: figuram as cariátides a 5 metros de altura, sobre uma torre construída para o trabalho, fingindo sustentar a platibanda da casa; envolvem-se, aos pares, em jogos de improviso no jardim, que remetem à tradição das fêtes galantes³ e da commedia dell’arte⁴ na pintura europeia do século XVIII, descansam no camarim,
que é um espaço acessível ao público, onde os bastidores da caracterização das estátuas vivas e parte das referências históricas do trabalho se dão a ver.
Os artistas usam um figurino ostensivamente bipartido: da cintura para cima, roupa pintada à mão, luvas, maquiagem e perucas simulando pedra, em referência às cariátides, das quais só se avista o tronco. Da cintura para baixo, calças pretas, meias pretas, sapato preto e um cinto de segurança da mesma cor, utilizado para conexão à linha de vida necessária para a escalada da torre. A torre, uma estrutura de madeira – preta, é claro – se revela a cada 30 minutos, depois de acionada a campainha, quando a cortina que a travestia em coluna durante a performance das estátuas é baixada para o revezamento. Em consonância com a caracterização bipartida de cenários e figurinos, contiguamente colorida e preta, figurativa funcional, os artistas se engajam em cada uma das atividades com graus variados de autonomia e verossimilhança.
Parece natural referir-se a SANS, SOUCI., meu trabalho, como performance. Afinal, há corpos em ação e trata-se de uma intervenção que parte do campo das artes visuais. Mas deixo duas ressalvas. A primeira deve-se ao fato de que a linguagem corporal, aqui, não é desenvolvida pelo trabalho, mas apropriada de uma prática existente no mundo da vida, a das estátuas vivas. Essa prática é trazida para o trabalho tal como se manifesta nas ruas das grandes cidades, voltada à apreciação consumista dos turistas, e carregada das contradições de suas origens e de sua circulação. O verdadeiro caráter performático aqui, portanto, pertence ao repertório das estátuas vivas e, antes de coincidir com o trabalho, é um de seus materiais.
A segunda ressalva é de ordem mais geral, e relaciona-se ao tratamento da performance como categoria. A despeito de sua origem na arte experimental dos anos 1960 e 1970, que pretendia romper os enquadramentos classificatórios que separavam a arte da vida, avançando sobre materiais e territórios antes impensados, entre eles os corpos dos artistas, a performance tornou-se um termo de acomodação, um guarda-chuvas sob o qual se domesticaram aquelas manifestações antes radicais sob um gênero da arte contemporânea. Posicionar SANS, SOUCI., sem atrito, como performance, apaga justamente o que pode haver de incômodo e anacrônico em se encontrar figuras humanas passando-se por estátuas nos jardins de uma elegante casa museu.
Notas da casa museu
- Cariátides e atlantes são elementos arquitetônicos em que colunas de um edifício são substituídas por figuras humanas esculpidas. Ouça a artista Ana Dias Batista contar as histórias da mitologia grega que atravessam a performance SANS, SOUCI: https://youtube.com/shorts/PVlkrYvOlWs?feature=share
- Bacantes são as seguidoras de Dionísio, deus grego do vinho e do êxtase, associadas a rituais de celebração e liberdade. Sátiros são figuras masculinas da mitologia grega, meio homens e meio bodes, companheiros de Dionísio ligados aos mesmos instintos de prazer e desregramento.
- Gênero de pintura francesa do século XVIII que retrata cenas de lazer e cortejo da aristocracia em jardins.
- Gênero de teatro popular italiano surgido no século XVI, caracterizado pelo uso de máscaras, pelo improviso e por personagens que representavam tipos sociais fixos.
+ do blog:
Ana Dias Batista
Ana Dias Batista, artista selecionada no programa Jardim Imaginário 2026, nasceu em São Paulo em 1978. Formada pela Universidade de São Paulo, onde concluiu o doutorado em 2014, já apresentou individuais na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu de Arte da Pampulha, entre outros espaços. Seus trabalhos estão nas coleções da Pinacoteca, do MAM-SP, do MAC-USP e do Getty Institute, em Los Angeles.


